MIRANDA, Celso. Auschwitz, por dentro da fábrica de matar. Super Interessante, São Paulo, set. de 2007. p.62-72 .
As Máquinas de morte de Hitler*
O autor da matéria de capa da Super Interessante de setembro é o jornalista Celso Miranda. Celso trabalhou no Notícias Populares, Folha de São Paulo e Gazeta Mercantil. A matéria ainda tem como designer com renome na internet Raphael Erichsen e na edição o esquerdista e sub-editor da revista Oscas (revista popular patrocinada por sem-tetos) Sérgio Gwercman. Um fato a ressaltar é que a revista do grupo Abril considera os dois como co-autores da matéria, pelo fato da evidência estética e semiótica nas páginas da revista.
“Auschwitz, por dentro da máquina de matar” não aborda simplesmente esse único campo de concentração, apesar de ter sido o maior e, consequentemente, o mais conhecido, mas mostra aos leitores toda a logística nazista para o extermínio em massa. O número mais conhecido é o de 6 milhões de judeus mortos no holocausto, porém o número de mortos em conseqüência da Segunda Guerra Mundial é de 53 milhões de pessoas, envolvendo soldados e civis.
As vítimas dos campos de concentração não eram apenas judeus, e esse é um dos motivos pelos quais os campos de concentração se tornaram campos de extermínio. Ciganos, testemunhas de Jeová, deficientes físicos e mentais, comunistas, prisioneiros de guerra eram mandados para os campos concentração. Com a ofensiva do Reich aos soviéticos, o número de prisioneiros foi se transformando em uma dificuldade, pois antes os campos usados simplesmente para trabalhos forçados.
Com o aumento de prisioneiros de guerra foi-se tornando cada vez mais difícil manter todos os prisioneiros. Então, foi a partir desse imprevisto aumento de prisioneiros que os nazistas decidiram a adotar a política de eliminar aqueles que não serviam para os trabalhos forçados nos campos. Fazia-se, assim, cada vez mais necessário montar uma estratégia que matasse de forma rápida e eficiente. De acordo com Heinrich Himler, o temível capitão da SS e da Gestapo, ao assistir um fuzilamento declarou que era “enorme [o] esforço para fuzilar apenas 100 pessoas”.
A aversão ao extermínio em massa através dos fuzilamentos também foi expressa por Hudolf Hoss, comandante supremo de Auschwitz, em seu diário, escrito na prisão dias antes de ser executado: “Essa história do gás me tranqüilizou. Sempre tive horror das execuções com pelotões de fuzilamento. Fiquei aliviado ao pensar que seríamos poupados daqueles banhos de sangue”. Com todas essas dificuldades, as experiências com Zyklon B (o gás tóxico) foram aprovadas pela cúpula nazista.
Dessa forma deu-se início à campanha de extermínio dos judeus e os demais “impuros” e “inúteis”, o holocausto nazista. No auge da guerra foram mortos, em campos de concentração, 3,6 milhões de pessoas em apenas um ano e dois meses. Em Auschwitz a capacidade máxima de prisioneiros foi 100 mil e diariamente chegavam trens lotados de mais prisioneiros dos frontes de batalha e dos territórios dominados. Durante toda a guerra o maior campo de concentração nazista, que ficava na Polônia, exterminou 1,1 milhão de prisioneiros nazistas.
A matéria vem mostrar que a eficiência no extermínio vai além dos preceitos ideológicos. Toda a logística arquitetada pelos nazistas vem da necessidade de eliminar opositores e prisioneiros que se faziam numerosos em demasia com o decorrer da guerra, em especial com as vitórias e conquistas. Afirma ainda que as câmaras de gás não foram somente um meio de eliminar os ditos “impuros” e “inúteis” que prejudicariam a, suposta, raça ariana, mas também uma máquina de guerra.
O que se deve observar, aliás, o que se questiona até hoje, é que mesmo com a eminente ameaça de guerra com Hitler no comando da Alemanha, a Europa preferiu virar as costas para o discurso Nazista e seu poder de influência no povo alemão. Os países europeus omitiram-se às evidências claras de guerra do regime autoritário, discriminatório e militarizado instaurado em uma Alemanha derrotada e humilhada pela Primeira Guerra Mundial.
Outro ponto a ser discutido (que, de certa forma se relaciona com o primeiro) é o de que durante esse momento nefasto da história, o próprio mundo não tomou conhecimento, ou fez questão de não saber da política de matança de Adolf Hitler pra legitimar o chamado espaço vital (lebensraum).
Um grande exemplo histórico de desconhecimento do que se passava nos territórios anexados ao Reich é o filme de Charles Chaplin, O Grande Ditador (The Great Dictator), onde o gênio americano do humor interpreta Hynkel, uma caricatura do füher alemão. Ao ser questionado sobre as atrocidades de Hitler Chaplin lamenta-se e declara que não teria feito o filme se tivesse conhecimento do que acontecia nos campos de concentração. Outro fato que perpetua até hoje é a ausência, ou quase total esquecimento, dos campos de concentração nos livros didáticos de história. Os livros comentam e evidenciam a ideologia nazi-fascista e até a Segunda Guerra Mundial, mas os campos de concentração passam quase que despercebidos. Assim, em enciclopédias e livros sobre o tema são raros, ao menos aqui no Brasil.
É necessário mostrar, estudar e investigar, ainda hoje, toda a ideologia Nazi-fascista e seus atos, para que jamais na história se repita fatos como esses. Os jovens devem tomar consciência da manipulação que os nazistas fizeram com sua juventude para que saibam os perigos do fanatismo e idolatria, seja a quem for. Assim fala o filósofo Victor Frankl: “Fiquemos alertas desde Auschwitz nós sabemos do que o homem é capaz. Desde Hiroshima nós sabemos o que está em jogo”.
Referências:
BARTOLETTI, Susan C. Juventude Hitlerista. 1. ed. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006.
SZKLARZ, Eduardo. Nazismo. Super Interessante, São Paulo, jul. de 2005. p.36-45 .
* Resenha apresentada no segundo período de Jornalismo
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